quarta-feira, 3 de março de 2010

Cuba e África: solidariedade verdadeira







Nos últimos dias Cuba tem sido criticada insistentemente por representantes da grande mídia e setores reacionários.

Nada a estranhar até aí. O que é realmente lamentável é que alguns setores do movimento social, a quem a revolução Cubana foi sempre solidária, se some às críticas. Alguns tentam, inclusive, imputar a um suposto racismo do governo cubano, a responsabilidade pela morte do preso Orlando Zapata, vítima de uma greve de fome.

O vídeo acima, embora em inglês, servirá para lembrar que enquanto os países ditos democráticos e desenvolvidos apoiavam o colonialismo e o apartheid, a Revolução Cubana lutou ombro a ombro com o MPLA (Angola), SWAPO (Namíbia), Frelimo (Moçambique) PAIGC (Guiné e Cabo Verde) pela independência africana e com o CNA contra o regime racista da Africa do Sul. No vídeo está Fidel com cada um dos grandes líderes anticolonialistas africanos e a expressão emocionada da gratidão de Nelson Mandela pela solidariedade cubana à luta contra o apartheid.

Vale lembrar também que enquanto os membros do Partido Panteras Negras eram perseguidos, mortos ou presos na luta contra o racismo nos Estados Unidos, a Revolução Cubana os apoiava e recebeu de braços abertos uma de suas líderes, Assata Shakur, que escapou de uma prisão americana em fins dos anos 70 e vive até hoje na ilha de Cuba.

Basta de hipocrisia em matéria de direitos humanos!

Cuba nada tem a aprender nessa matéria com o país que hoje mata civis no Afeganistão e chama a isso de danos colaterais e nem mesmo com o Brasil onde assiste-se a um verdadeiro genocídio da juventude negra!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Um delinqüente convertido em preso político

Quanta hipocrisia dessa gente de direitos humanos seletivos. Atacam Cuba para atingir Lula

Por Max Altman


A greve de fome de pessoa que cumpre pena em presídio é uma arma de desobediência e um desafio às determinações do Estado que pode assumir caráter político ou de reivindicação por melhores condições carcerárias. Manifestação de vontade individual ou coletiva, deve ser respeitada e criteriosamente avaliada. Ao tomar, conscientemente, a grave decisão de iniciar a greve de fome o preso sabe - e é informado - que a conseqüência pode ser fatal.

Alguns entregam sua vida por um ideal mais nobre. Esses contam com defensores de fora da prisão que pressionam as autoridades a fim de que o objetivo da greve de fome seja alcançado. Outros priorizam sua própria vida e ainda assim esperam ver acatadas suas exigências. Quando ocorre a morte, os verdadeiros humanistas se condoem.

Contudo, a reação que se leu, viu e ouviu nesses dias a respeito do caso do cubano Orlando Zapata Tamayo passa longe da natural comiseração. O cadáver de Zapata é agora exibido como um troféu coletivo. Os grandes meios de comunicação já vinham antecipando o desenlace com intenções pouco dissimuladas de utilização com premeditados fins políticos.

Zapata não fazia parte dos chamados dissidentes que foram julgados em março de 2003, não era um dos 75. Tinha um longo histórico delitivo comum, nada vinculado à política. Transformado depois de muitas idas e vindas à prisão em ativista político, era um homem prescindível para os opositores da Revolução.

Cumpria uma sentença de privação de liberdade de 25 anos depois de ter sido inicialmente sentenciado em 2004 a três anos por desordem pública, desacato e resistência. Vinculou-se aos dissidentes após contactos com Oswaldo Payá e Marta Beatriz Roque. Declarou-se em greve de fome em 18 de dezembro. Apesar de se negar a tanto, recebeu, de acordo com o que estabelece o Tratado de Malta, a assistência médica necessária, inclusive terapia intermédia e intensiva e alimentação voluntária por via parenteral endovenosa e enteral. Transferido para um hospital geral foi-lhe diagnosticado pneumonia, tratada com os procedimentos mais avançados. Ao ter comprometido ambos os pulmões, foi assistido com respiração artificial até que ocorreu o óbito.

Vou à história, curioso em saber como a grande imprensa cobriu greves de fome de presos que terminaram ou não em morte e como selecionam os direitos humanos.

Ao assumir o governo inglês em 1979, Margareth Thatcher deflagrou uma ofensiva militar e política contra os movimentos pela libertação da Irlanda do Norte. A virulenta tentativa de criminalização do republicanismo irlandês passava pela supressão de qualquer diferença entre o tratamento dispensado, nos cárceres, aos soldados do Exército Republicano Irlandês (IRA), do Exército de Libertação Nacional Irlandês (INLA) e a criminosos comuns. Em resposta, combatentes irlandeses encerrados nos blocos H da prisão de Maze, deflagram em 1º de março de 81 uma greve de fome. Suas reivindicações: não usar uniformes de presidiário; não realizar trabalhos forçados; liberdade de associação e organização de atividades culturais e educativas; direito a uma carta, uma visita e um pacote por semana; e que os dias de protesto não fossem descontados quando do cômputo do cumprimento da pena. Recusando-se a ser tratados como criminosos, defendiam, a um só tempo, sua dignidade pessoal e a legitimidade da luta pela libertação de seu país. A um custo inimaginavelmente alto - onze homens morreram de inanição após longa agonia de 63 dias - os grevistas conseguiram uma vitória moral, ao fazer com que os ingleses retrocedessem quanto ao regime carcerário poucos meses após o fim do movimento; e uma vitória política, ao frustrar os planos de Thatcher de expor os que lutavam pela liberdade da Irlanda como criminosos aos olhos do mundo. O funeral de Bobby Sands, o líder do movimento, foi assistido por mais de 100 mil pessoas.

Thatcher, insensível, fez ouvidos moucos aos apelos. Teria o Estadão, a Folha ou o Globo ou El Pais, The New York Times, Die Welt, Le Fígaro, Clarin, estampado em sua manchete principal acusando Thatcher de homicida? Evidentemente, não!

Em meio século, nada mudou na Turquia, onde os presos políticos continuam fazendo greve de fome, não pela liberdade, como Nazim Hikmet, mas para recuperar a dignidade. Nazim Hikmet, o grande poeta turco, a quem a escritora Charlotte Kan chamou de “o comunista romântico”. condenado a uma pena pesada, em um longo processo construído nos mínimos detalhes, estava preso em Bursa, fazia doze anos, quando começou uma greve de fome para recuperar a liberdade. E ainda teve forças suficientes para escrever o poema “O quinto dia de uma greve de fome”, dedicado a seus amigos franceses que lutavam por sua libertação. Acaso os editoriais da nossa imprensa acusaram os governantes turcos de perpetradores de um crime continuado? Nem pensar.

Na base militar de Guantanamo, aqueles que as autoridades norte-americanas chamam de “combatentes inimigos” fizeram, entre fevereiro de 2002 e fim de setembro de 2005, seis tentativas conhecidas - e talvez centenas ignoradas - de desafiar seus carcereiros do Pentágono com greves de fome. Alguém leu ou ouviu acusações a Obama de violador dos direitos humanos elementares por não ter cumprido a promessa de encerrar esse centro de tortura e humilhação?

Recentemente, a aviação norte-americana dizimou, no espaço de dias, famílias de cidadãos afegãos, a maioria mulheres e crianças. A mídia abriu espaço para o pedido de desculpas dos generais e nem um milímetro para acusá-los e a Washington de estar perpetrando uma política de terrorismo de Estado e de violação da Convenção de Genebra.

Passaportes britânicos de cidadãos israelenses de dupla nacionalidade foram utilizados pelo serviço secreto do Mossad para executar extrajudicialmente em Dubai o líder do Hamas, Mahmoud AL-Mabhouh. Por acaso, a mídia abriu suas colunas para acusar o governo Netanyhau de criminoso e fora-de-lei?

Na confrontação dos Estados Unidos e Cuba, ao largo de mais de meio século, milhares de cubanos foram vítimas de atos de terrorismo arquitetados em solo norte-americano com pleno conhecimento da Casa Branca, incluindo diplomatas assassinados no exterior. Quando Havana se dispôs a tomar medidas de inteligência para prevenir esses ataques, cinco de seus concidadãos foram presos e condenados, em processo totalmente viciado levado a cabo em Miami, a penas draconianas que chegaram a duas prisões perpétuas mais 15 anos para um deles. Jamais a mídia internacional e a nossa mídia trataram do assunto.

Os ataques virulentos a Cuba por parte da direita, das oligarquias, dos setores reacionários e dos segmentos conservadores e seus porta-vozes não são novidade. Não se conformam de a Revolução Cubana ter resistido sozinha, graças à firmeza de sua liderança e apoio valente de seu povo, à opressão e aos desígnios do Império. Nenhum outro governo da região a apoiou. Hoje diversos governos da região a apóiam. A solidariedade, simpatia e defesa da gente simples e dos progressistas em todo o mundo nunca faltou.

A visita de Lula a Havana coincidiu com a morte de Zapata. Nossa mídia rebaixou a assinatura de 10 acordos de cooperação entre os quais se destaca a modernização do porto de Mariel. No entanto, o criticou furiosamente pretendendo vinculá-lo ao desrespeito a direitos humanos. No fundo querem destruir sua imagem de grande líder nacional e internacional em proveito de seus interesses ideológicos permanentes e eleitorais de agora.

Lula soube se comportar como chefe de Estado. E pessoalmente foi leal aqueles que ao longo de décadas se constituiram numa referência de soberania, independência, auto-determinação mas também de dignidade, heroismo e solidariedade.

Max Altman é jornalista

Para quem é útil a morte do preso cubano?

Por Enrique Ubieta

A absoluta carência de mártires de que padece a contra-revolução cubana é proporcional à sua falta de escrúpulos. É difícil morrer em Cuba, não porque as expectativas de vida sejam de primeiro mundo - ninguém morre de fome, apesar da falta de recursos, ou de doenças curáveis -, mas porque impera a lei e a honra.

Por Enrique Ubieta, em Cuba Debate
Os mercenários cubanos podem ser presos e julgados seguindo leis vigentes - em nenhum país se pode violar leis (receber dinheiro e trabalhar com a embaixada de um país considerado como inimigo nos Estados Unidos, por exemplo, pode levar a severas sanções de privação de liberdade) -, mas eles sabem que em Cuba ninguém desaparece, ou é morto pela polícia.

Não existem "lugares obscuros" para interrogatórios "não convencionais" a presos-desaparecidos, como os de Guantánamo e Abu Ghraib. Além disso, o ser humano entrega sua vida por um ideal que priorize a felicidade de todos e não a sua própria felicidade.

Nas últimas horas, entretanto, algumas agências de notícias e governos se apressaram em condenar Cuba pela morte, na prisão, em 23 de fevereiro, do cubano Orlando Zapata Tamayo. Toda morte é dolorosa e lamentável. Mas o eco da mídia desta vez se tinge de entusiasmo: finalmente, parecem dizer, aparece um "herói". Por isso se impõe explicar brevemente, sem qualificações desnecessárias, quem era Zapata Tamayo.

Apesar de toda a maquiagem, se trata de um prisioneiro comum, que iniciou a sua atividade criminosa em 1988. Processado pelos delitos de "violação de domicílio" (1993), "lesões menos graves" (2000), "fraude" (2000), "lesão corporal e posse de faca" (2000: ferimentos e fratura do crânio do cidadão Leonardo Simon, com o uso de um machete), "alteração da ordem" e "desordem pública" (2002), entre outras causas em nada relacionadas à política, foi liberado sob fiança em 9 de março de 2003 e reincidiu no dia 20 do mesmo mês.

Considerando seus antecedentes e condição penal, desta vez, foi condenado a 3 anos de prisão, mas a sentença inicial foi ampliada de forma significativa no ano seguinte por sua conduta agressiva na prisão.

Na lista dos chamados presos políticos, elaborada pela manipulada e extinta Comissão de Direitos Humanos da ONU para condenar Cuba em 2003, não aparece seu nome - como afirmou, sem verificar as fontes e os fatos, a agência espanhola EFE -, apesar de sua última detenção coincidir com a mesma época da dos mercenários. Se tivesse existido uma intenção política prévia, não teria sido liberado onze dias antes.

De um lado, existia a contra-revolução ávida em mobilizar o maior número possível de supostos ou reais correligionários nas suas fileiras. Do outro, convencido das vantagens materiais que envolvia uma "militância" amamentada pelas embaixadas estrangeiras, Zapata Tamayo adotou o perfil "político" quando sua biografia penal já era extensa.

Nesse novo papel, ele foi estimulado algumas vezes pelos seus mentores políticos a iniciar greves de fome que minaram definitivamente seu organismo. A medicina cubana o acompanhou. Nas diferentes instituições hospitalares onde foi tratado há especialistas altamente qualificados - aos quais foram agregados os consultores de diferentes centros, que não pouparam recursos para seu tratamento. Ele recebeu alimentação intravenosa. A família foi informada de cada passo. Sua vida foi prolongada durante dias por respiração artificial. De tudo isto existem provas documentais.

Mas há perguntas sem respostas que não são médicas. Quem incentivou Zapata a manter uma atitude que era obviamente suicida e por quê? A quem convinha a sua morte? O desenlace fatal regozija intimamente os hipócritas "sofredores". Zapata era o candidato perfeito: um homem "dispensável" para os inimigos da Revolução, e facil de convencer para que persistisse em um esforço absurdo, de exigências impossíveis (televisão, cozinha e telefone celular pessoa dentro da cela), que nenhum dos verdadeiros líderes teve a coragem de manter.

Cada greve anterior dos instigadores havia sido anunciada como uma provável morte, mas os grevistas sempre desistiam antes que se produzissem incidentes de saúde irreversíveis. Instigado e encorajado a prosseguir até a morte - estes mercenários estavam esfregando as mãos com essa expectativa, apesar dos esforços não economizados dos médicos -, seu nome agora é exibido com cinismo como um troféu coletivo.

Como abutres, alguns meios de comunicação - os mercenários e a direita internacional -, estavam vagueando em torno do moribundo. Sua morte é um festim. Causa asco o espetáculo. Porque os que escrevem não se compadecem da morte de um ser humano - em um país sem mortes extra-judiciais -, mas a expõem quase alegremente, e a utilizam com premeditados fins políticos. Zapata Tamayo foi manipulado e de certa forma conduzido à auto-destruição premeditadamente, para satisfazer a necessidades políticas alheias.

Acaso isto não é uma acusação contra aqueles que agora se apropriam de sua "causa"? Este caso é um resultado direto da política assassina contra Cuba, que encoraja a emigração ilegal, o desacato e a violação das lei e da ordem estabelecida. Aí está a única causa desta morte indesejável.

Mas por que há governos que se unem à campanha difamatória, se sabem - porque o sabem -, que em Cuba não se executa, nem se tortura, nem se empregam métodos extrajudiciais? Em qualquer país europeu podem ser encontrados casos - às vezes francas violações de princípios éticos - não tão bem atendidos quanto o nosso. Alguns, como aqueles irlandeses que lutaram por sua independência na década de oitenta, morreram em meio à total indiferença dos políticos.

Por que há governantes que descartam a denúncia explícita do injusto confinamento sofrido por cinco cubanos nos Estados Unidos por lutarem contra o terrorismo, e se apressam em condenar Cuba, quando a pressão da mídia põe em perigo sua imagem política? Cuba já disse uma vez: podemos enviar todos os mercenários e suas famílias, mas nos devolvam nossos heróis. Nunca será possível usar chantagem política contra a Revolução Cubana.

Esperamos que os adversários imperiais saibam que nossa pátria não será jamais intimidada, curvada, nem apartada de seu heróico e digno caminho, pelas agressões, a mentira e a infâmia.

Fonte: Cuba Debate

sábado, 20 de fevereiro de 2010

PARTICIPAÇÃO DA ACJM - BAHIA E CEBRAPAZ NO FSMT


Palestra no Espaço Marx












A ACJM - Bahia e o Núcleo do Cebrapaz-Ba tiveram uma atuação destacada no Forum Social Mundial Temático da Bahia.



Os membros das duas Associações estiveram envolvidos nas atividades previamente definidas nas reuniões preparatórias. As entidades destacaram-se também no campo da propaganda de nossas causas, tendo seu ponto culminante na Marcha de Encerramento que teve início na Praia de Ondina e percorreu a Avenida Atlântica até o Farol da Barra. A destacada ala internacionalista da Marcha agregou muitos outros companheiros e companheiras de outros movimentos sociais que a todo momento se solidarizavam com nossos objetivos.



A solidariedade a Cuba e ao Haiti, a defesa da libertação dos Cinco Heróis e da autodeterminação dos povos marcaram nossa partcipação em várias atividades do Fórum, durante as quais foram distribuídos 300 exemplares do livreto "Cinco Heróis, Bloqueio/Guatánamo" editado pela ACJM - Bahia.




Espaço Marx


Listamos abaixo as principais atividades em que a ACJM - Bahia e o CEBRAPAZ tiveram importante presença:

1. Espaço Marx do FSMT - Organização: Fundações Maurício Grabois, Lauro Campos e Dinarco Reis.
Pela primeira vez em 10 anos do FSM, debateu-se o pensamento marxista de forma explícita e organizada, no auditório do Sindicato dos Bancários da Bahia, que despertou o interesse de muitos delegados e partipantes, chegando a ficar superlotado em alguns debates.
Temas dos debates: A estratégia para a revolução no Brasil, Marxismo no Brasil,Crise do Capitalismo e Balanço e expactativas das experiências socialistas do Século XX. Nessa última mesa tivemos a participação do intelectual cubano Miguel Hernandez que compartilhou a mesa com o sociólogo José Luiz Del Roio, o dirigente nacional do PCdoB Ricardo Abreu e Valério Arcary, dirigente do PSTU.


2. Ato de Abertura do FSMT

3. "Sul - Sul como Alternativa" - debate que ocorreu no Salão Atlântico do Hotel da Bahia

4. "Governança e Paz Mundial" - Hotel Sol Barra - com Socorro Gomes (Brasil) Carlos Lopes, Immanuel Wallerstein (EUA), Samuel Pinheiro Guimarães (Brasil) e Jorge Beinstein (Argentina)

5. "A esquerda hoje e as contribuiçõs dos pensadores da América Latina e África

6. Ato de Solidariedade a Cuba e ao povo haitiano - Espaço da juventude, no passeio público, local que foi "tomado" por faixas e painéis da ACJM-Bahia e Cebrapaz.

7. Marcha de Encerramento com a organização da Ala Internacionalista.






Espaço da Juventude

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

ACJM E CEBRAPAZ NO FORUM SOCIAL


FAIXAS NO PASSEIO PÚBLICO, LOCAL DO CENTRO DE SALVADOR QUE DURANTE O FORUM SOCIAL FOI DENOMINADO DE ESPAÇO DA JUVENTUDE E POR ONDE TRANSITARAM DIARIAMENTE MILHARES DE PESSOAS.


ESPAÇO DA JUVENTUDE: ACJM e CEBRAPAZ PEDEM LIBERDADE PARA OS 5 HERÓIS





ESPAÇO DA JUVENTUDE: FAIXAS PELO FIM DAS BASES AMERICANAS NO MUNDO





ESPAÇO DA JUVENTUDE: SOLIDARIEDADE A CUBA

ACJM E CEBRAPAZ NO FORUM SOCIAL


A ACJM E O CEBRAPAZ ESTIVERAM PRESENTES À MARCHA DE ENCERRAMENTO DO FORUM SOCIAL MUNDIAL TEMÁTICO QUE PERCORREU AS PRINCIPAIS RUAS DE SALVADOR.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Médica cubana atende criança no Haiti.

Médicos de Cuba no Haiti: a solidariedade silenciada pela mídia



Por José Manzaneda*, em Adital


A ajuda de Cuba ao povo haitiano não começou por ocasião do terremoto. Cuba atua no Haiti desde 1998 desenvolvendo um Plano Integral de Saúde(1), através do qual já passaram mais de 6.000 cooperantes cubanos da saúde.

Horas depois da catástrofe, no dia 13 de janeiro, somavam-se à brigada cubana 60 especialistas em catástrofes, componentes do Contingente "Henry Reeve", que voaram de Cuba com medicamentos, soro, plasma e alimentos(2).

Os médicos cubanos transformaram o local onde viviam em hospital de campanha, atendendo a milhares de pessoas por dia e realizando centenas de operações cirúrgicas em 5 pontos assistenciais de Porto Príncipe. Além disso, ao redor de 400 jovens do Haiti formados como médicos em Cuba se uniam como reforço à brigada cubana(3).

Os grandes meios silenciaram tudo isso. O diário El País, em 15 de janeiro, publicava uma infografia sobre a "Ajuda financeira e equipamentos de assistência", na qual Cuba nem sequer aparecia dentre os 23 Estados que havia colaborado(4). A cadeia estadunidense Fox News chegava a afirmar que Cuba é dos poucos países vizinhos do Caribe que não prestaram ajuda.

Vozes críticas dos próprios Estados Unidos denunciaram esse tratamento informativo, apesar de que sempre em limitados espaços de difusão.Sarah Stevens, diretora do Center for Democracy in the Americas(5) dizia no blog The Huffington Post: Se Cuba está disposta a cooperar com os EUA deixando seu espaço aéreo liberado, não deveríamos cooperar com Cuba em iniciativas terrestres que atingem a ambas nações e os interesses comuns de ajudar ao povo haitiano?(6)

Laurence Korb, ex-subsecretário de Defesa e agora vinculado ao Center for American Progress(7), pedia ao governo de Obama "aproveitar a experiência de um vizinho como Cuba" que "tem alguns dos melhores corpos médicos do mundo" e com quem "temos muito o que aprender"(8).

Gary Maybarduk, ex-funcionário do Departamento de Estado propôs entregar às brigadas médicas equipamento duradouro médico com o uso de helicópteros militares dos EUA, para que possam deslocar-se para localidades pouco accessíveis do Haiti(9).

E Steve Clemons, da New America Foudation(10) e editor do blog político The Washington Note(11), afirmava que a colaboração médica entre Cuba e EUA no Haiti poderia gerar a confiança necessária para romper, inclusive, o estancamento que existe nas relações entre Estados Unidos e Cuba durante décadas(12).

Porém, a informação sobre o terremoto do Haiti, procedente de grandes agências de imprensa e de corporações midiáticas situadas nas grandes potências, parece mais a uma campanha de propaganda sobre os donativos dos países e cidadãos mais ricos do mundo.

Apesar de que a vulnerabilidade diante da catástrofe por causa da miséria é repetida uma e outra vez pelos grandes meios, nenhum quis se debruçar para analisar o papel das economias da Europa ou dos EUA no empobrecimento do Haiti.

O drama desse país está demonstrando uma vez mais a verdadeira natureza dos grandes meios de comunicação: ser o gabinete de imagem dos poderosos do mundo, convertidos em doadores salvadores do povo haitiano quando foram e são, sem paliativos, seus verdadeiros verdugos.

Quadro Informativo 1. Dados da cooperação de Cuba com o Haiti desde 1998:

- Desde dezembro de 1998, Cuba oferece cooperação médica ao povo haitiano através do Programa Integral de Saúde;

- Até hoje trabalharam no setor saúde no Haiti 6.094 colaboradores que realizaram mais de 14 milhões de consultas médicas, mais de 225.000 cirurgias, atendido a mais de 100.000 partos e salvado mais de 230.000 vidas

- Em 2004, após a passagem da tormenta tropical Jeanne pela cidade de Gonaives, Cuba ofereceu sua ajuda com uma brigada de 64 médicos e 12 toneladas de medicamentos.

- 5 Centros de Diagnóstico Integral, construídos por Cuba e pela Venezuela, prestavam serviços ao povo haitiano antes do terremoto.

- Desde 2004 é realizada a Operação Milagre no Haiti e até 31 de dezembro de 2009 haviam sido operados um total de 47.273 haitianos.

- Atualmente, estudam em Cuba um total de 660 jovens haitianos; destes, 541 serão diplomados como médicos.

- Em Cuba já foram formados 917 profissionais, dos quais 570 como médicos. Cuba coopera com o Haiti em setores tais como a agricultura, a energia, a pesca, em comunicações, além de saúde e educação.

- Como resultado da cooperação de Cuba na esfera da educação, foram alfabetizados 160.030 haitianos.

Quadro 2. Dados das atuações do Contingente Internacional de Médicos Cubanos Especializados em Situações de Desastres e Graves Epidemias, Brigada "Henry Reeve", anteriores à cooperação no Haiti:

- Desde sua constituição, a Brigada Henry Reeve cumpriu missões em 7 países, com a presença de 4.156 colaboradores, dos quais 2.840 são médicos.

- Guatemala (Furacão Stan): 8 de outubro de 2005, 687 colaboradores; destes 600 médicos.

- Paquistão (Terremoto): 14 de outubro de 2005, 2 564 colaboradores; destes 1 463 médicos.

- Bolívia (inundações): 3 de fevereiro de 2006-22 de maio, 602 colaboradores; destes, 601 médicos.

- Indonésia (Terremoto): 16 de maio 2006, 135 colaboradores; destes, 78 médicos.

- Peru (Terremoto): 15 de agosto 2007-25 de março 2008, 79 colaboradores; destes, 41 médicos.

- México (inundações): 6 de novembro de 2007 - 26 de dezembro, 54 colaboradores; destes, 39 médicos.

- China (terremoto): 23 de maio 2008-9 de junho, 35 colaboradores; destes, 18 médicos.

- Foram salvas 4 619 pessoas.

- Foram atendidos em consultas médicas 3.083.158 pacientes.

- Operaram (cirurgia) a 18 898 pacientes.

- Foram instalados 36 hospitales de campanha completamente equipados, que foram doados por Cuba (32 ao Paquistão, 2 a Indonésia e 2 a Peru).

- Foram beneficiados com próteses de membros em Cuba 30 pacientes atingidos pelo terremoto do paquistão.

Notas:

(1) http://cubacoop.com
2)http://www.prensalatina.cu/index.php?option=com_content&task=view&id=153705&Itemid=1
(3) http://www.ain.cu/2010/enero/19cv-cuba-haiti-terremoto.htm
(4) http://www.pascualserrano.net/noticias/el-pais-oculta-344-sanitarios-cubanos-en-haiti
(5) http://democracyinamericas.org
(6)http://www.huffingtonpost.com/sarah-stephens/to-increase-help-for-hait_b_425224.html
(7) http://www.americanprogress.org/
(8)http://www.csmonitor.com/USA/Military/2010/0114/Marines-to-aid-Haitian-earthquake-relief.-But-who-s-in-command
(9)http://www.washingtonpost.com/wpdyn/content/article/2010/01/14/AR2010011404417_2.html
(10) http://www.newamerica.net/
(11) http://www.thewashingtonnote.com/
(12) http://www.thewashingtonnote.com/archives/2010/01/american_diplom/

*Coordenador do Cubainformación

Fonte: Adital (Esse texto, traduzido por Adital, é o roteiro do seguinte vídeo, em espanhol: http://www.cubainformacion.tv/index.php?option=com_content&task=view&id=13417&Itemid=86)

sábado, 6 de fevereiro de 2010





Médicos estadunidenses prestam serviços em hospitais cubanos

Elas são sete médicas formadas na Escola Latino-Americana de Medicina de Havana


PORTO PRÍNCIPE, Haiti — Sete médicas muito jovens acabam de chegar ao hospital de campanha de Croaix des Buquet. Vieram dos Estados Unidos e desejam “ajudar, junto aos irmãos cubanos, o sofrido povo haitiano”. Afirmaram que estão tentando revalidar seus diplomas de medicina, mas tinham a necessidade de vir aqui. Por enquanto, elas suspenderam os estudos para estar aqui. Por isso, desde já começaram a atender aos pacientes haitianos.


As médicas graduadas na ELAM chegaram ao hospital de campanha para ajudar, junto aos cubanos, o povo haitiano.
Elsie Walter falou em nome de todas elas, que explicou que são graduadas da Escola Latino-Americana de Medicina de Cuba. Cinco delas são de Nova Iorque e duas, da Califórnia. Foram convocadas pelo reverendo Lucius Walker e não hesitaram em aceitar. “Muitos queriam vir, mas devido às responsabilidades que lá temos, apenas pudemos vir sete. Outros vão-se incorporar depois, porque sabemos que a Brigada Médica cubana vai ficar aqui por muito tempo”.

Este primeiro grupo trabalhará por um mês no hospital dos cubanos, que até esse dia havia atendido a 3.590 pacientes. Estas médicas norte-americanas vão compartilhar com os cubanos a vida dentro de um hospital de campanha. O diretor do centro, o ortopedista William Álvarez, explicou que a ideia é inseri-las nas atividades do hospital, tanto nas visitas a domicílio, quanto nas consultas, mas tudo isso se fará de maneira gradual. A maior preocupação das médicas é que não sabem o crioulo, por isso os estudantes haitianos formados em Cuba e que agora estão no Haiti vão ajudá-las a se comunicarem nessa língua.


No hospital onde estas médicas vão trabalhar, foram atendidos 3.590 pacientes.
O médico salientou que as jovens formadas na ELAM foram com provimento de água e alimentos, mas, assim que chegaram, colocaram-no à disposição das reservas do hospital. Além disso, levaram mochilas carregadas de medicamentos que também doaram. “Inseriram-se muito bem no grupo de cubanos”, disse. “Com certeza, elas serão um grande apoio e também um desafio: somos responsáveis pela sua preparação e estão num cenário que nunca antes viram. Nunca se defrontaram, por exemplo, com doenças como a de Chagas ou a leishmanionse”.

Elsie comentou que elas vieram para compartilhar tudo, pois assim o aprenderam na ELAM. Por isso não veem dificuldade em dormir em barracas e trabalhar a qualquer hora. “A experiência é maravilhosa, vocês nos tratam muito bem, com muita hospitalidade. Para nós, é um privilégio estarmos aqui; graças a Cuba por nos ter aberto as portas, como sempre”.

Elsie assinalou que ela e suas colegas estão fazendo exames para revalidar seus diplomas de medicina e que, apesar de ser diferente a maneira de avaliar no seu país, estão muito bem preparadas para aprovarem. Assim falam estas jovens formadas em Cuba, que se juntam aos nossos médicos para continuar salvando vidas no Haiti. Hoje, quando comecem as consultas no hospital de campanha de Croaix des Buquet, os pacientes vão ver com novos rostos. Contudo, o atendimento será o mesmo.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Médicos de Cuba: la solidaridad silenciada

Por: José Manzaneda

Los médicos cubanos habilitaron su vivienda como hospital de campaña, atendiendo a miles de personas al día y realizando centenares de operaciones quirúrgicas en 5 puntos asistenciales de Puerto Príncipe. Además, alrededor de 400 jóvenes de Haití formados como médicos en Cuba se unían como refuerzo a la brigada cubana

Los cerca de 400 cooperantes de la brigada médica cubana en Haití fueron la más importante asistencia sanitaria al pueblo haitiano durante las primeras 72 horas tras el reciente terremoto. Esta información ha sido censurada por los grandes medios de comunicación internacionales.

Y es que la ayuda de Cuba al pueblo de Haití no ha llegado con el terremoto. Cuba desarrolla en Haití desde 1998 un Plan Integral de Salud (1), por el que han pasado más de 6.000 cooperantes cubanos de la salud. Horas después de la catástrofe, el mismo día 13 de enero, se sumaban a la brigada cubana 60 especialistas en catástrofes, componentes del Contingente "Henry Reeve", que volaban desde Cuba con medicamentos, suero, plasma y alimentos (2). Los médicos cubanos habilitaron su vivienda como hospital de campaña, atendiendo a miles de personas al día y realizando centenares de operaciones quirúrgicas en 5 puntos asistenciales de Puerto Príncipe. Además, alrededor de 400 jóvenes de Haití formados como médicos en Cuba se unían como refuerzo a la brigada cubana (3).

Los grandes medios han silenciado todo esto. El diario El País, el 15 de enero, publicaba una infografía sobre la "Ayuda financiera y equipos de asistencia", en la que Cuba ni siquiera aparecía entre los 23 estados que han aportado colaboración (4). La cadena estadounidense Fox News llegaba a afirmar que Cuba es de los pocos países vecinos del Caribe que no han acudido a prestar ayuda.

Voces críticas de los propios EE.UU. han denunciado este tratamiento informativo, aunque siempre en muy limitados espacios de difusión.

Sarah Stevens, directora del Center for Democracy in the Americas (5) , decía en el blog The Huffington Post: ¿si Cuba está dispuesta a cooperar con los EE.UU. en el aire (dejando libre su espacio aéreo), no deberíamos cooperar con ella en iniciativas terrestres que afectan a ambas naciones y los intereses conjuntos de ayudar al pueblo haitiano? (6)

Laurence Korb, ex subsecretario de Defensa y ahora vinculado con el Center for American Progress (7), pedía al gobierno de Obama "aprovechar la experiencia de un vecino como Cuba" que "tiene algunos de los mejores cuerpos médicos del mundo", y de los que "tenemos mucho que aprender" (8).

Gary Maybarduk, ex funcionario del Departamento de Estado, ha propuesto entregar a las brigadas médicas cubanas equipamiento duradero médico con el uso de helicópteros militares de EE.UU., para que puedan desplazarse a localidades poco accesibles de Haití (9).

Y Steve Clemons, de la New America Foundation (10) y editor del blog político The Washington Note (11), afirmaba que la colaboración médica entre Cuba y EE.UU. en Haití podría generar la confianza necesaria para romper incluso el estancamiento que ha habido en las relaciones entre EE.UU. y Cuba durante decenios (12).

Pero la información sobre el terremoto de Haití, procedente de grandes agencias de prensa y de corporaciones mediáticas ubicadas en las grandes potencias, se parece más a una campaña de propaganda sobre los donativos de los países y ciudadanos más ricos del mundo. Si bien la vulnerabilidad ante la catástrofe por causa de la miseria es repetida una y otra vez por los grandes medios, ninguno ha querido entrar a analizar el papel de las economías de Europa o EE.UU. en el empobrecimiento de Haití. El drama de este país está demostrando, una vez más, la verdadera naturaleza de los grandes medios de comunicación: ser el gabinete de imagen de los poderosos del mundo, convertidos en donantes salvadores del pueblo haitiano cuando han sido y son, sin paliativos, sus verdaderos verdugos.
Fonte: Telesur

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

TODA SOLIDARIEDADE AO HAITI


TODA SOLIDARIEDADE AO HAITI

Por Antonio Barreto *


A República do Haiti, fundada em 1804 pelos ex-escravos rebelados, primeiro país a conquistar a independência na América Latina, teve quase todo o seu povo crioulo massacrado e parte escravizada a partir de 1492, ano em que a expedição espanhola comandada por Cristóvão Colombo, aportou na Bahia hoje denominada de Porto Príncipe.

Em 1697, a metade do território a leste da Ilha (São Domingos) foi cedida à França pelos espanhóis. No século XVIII, o Haiti transformou-se na mais próspera colônia espanhola das Américas, como grande exportador de açúcar, café e cacau, produtos do trabalho escravo.

Em 1794, uma revolta dos escravos termina com o regime de servidão. Nesse mesmo ano, a França passa a dominar toda a Ilha. Em 1803, o povo haitiano, liderado pelo negro Jaques Dessalines, organiza a resistência, derrota os Franceses e no ano seguinte, declara a independência.

A reação colono/escravista estadunidense e européia foi imediata. Decretaram um bloqueio econômico ao país, que levou os haitianos a um longo período de sofrimento por 60 anos seguidos. Após encarniçada luta, o país é dividido e o território da atual República Dominicana, é recuperado pela Espanha. Reunificado em 1822, o país, vítima da espoliação estrangeira, é novamente dividido e é declarada a independência da República Dominicana em 1844.

O Haiti conviveu com 20 governantes da metade do século XIX ao início do século XX. Desses, 16 foram depostos e os Estados Unidos ocuparam militarmente o país a partir de 1915, por longos 19 anos. A partir de 1946, uma sucessão de governos fantoches dos imperialistas governaram o Haiti com “mão de ferro” e repressão em massa ao opositores do regime, tendo os assassinatos como norma contra os mais aguerridos defensores da democracia e da soberania do Haiti. Entre estes, o médico Dusmarsais Estimé e François Duvalier - o Papa Doc - e seus tutons macoutes, da guarda presidencial. Este, autodeclarado presidente vitalício, foi substituído pelo filho de 19 anos, Jean-Claude Duvalier - o Baby Doc – que após terdecretado estado de sítio em 1986, fugiu para a França para não ser trucidado pelo povo.

Em 1990 o ex-padre, seguidor da teoria da libertação, Jean-Bertrand Aristide é eleito presidente. Deposto pelos militares antes de completar um ano de mandato, o presidente Aristide é reempossado por intervenção da ONU. Eleito pela segunda vez em 2000, o presidente Aristide é novamente apeado do poder em 2003, pela pressão da oposição apoiada pelos Estados Unidos que o retiram à força do país com destino à África do Sul, para um exílio forçado.

Hoje o Haiti é governado pelo presidente René Preval, aliado incondicional dos Estados Unidos e em decorrência da grave crise de violência, filha da miséria na qual o país está mergulhado, vive sob intervenção de uma força militar de paz (MINUSTAH) da ONU, composta por 6.700 efetivos militares de 16 países, sob comando do Brasil. A presença dessa Força de Paz, neste momento, está dando uma significativa ajuda para minorar o sofrimento do povo.

O líder cubano Fidel Castro, afirmou recente em artigo intitulado “A lição do Haiti” publicado no jornal Granma, que a situação de extrema pobreza do Haiti é “uma vergonha de nossa época” e pediu soluções reais e verdadeiras para o país. Disse ainda que “O Haiti é um produto do colonialismo e imperialismo, de mais de um século de emprego de seus recursos humanos nos trabalhos mais duros, das intervenções militares e extração de suas riquezas”.

Mark Weisbrot (1) em artigo na Folha de São Paulo, publicado também no portal http://www.vermelho.org.br/, afirmou que “...das incontáveis atrocidades cometidas sob ditaduras auxiliadas e apoiadas por Washington, o golpe de 2004 não pode ser relegado ao esquecimento, visto que nada mais que “história antiga”. “Aconteceu há apenas seis anos e é diretamente relacionado ao esforço de ajuda e reconstrução que o presidente Obama está propondo agora”. Afirmou ainda, que “O primeiro governo democrático de Aristide foi derrubado após sete meses, em 1991, por oficiais militares e esquadrões da morte que, mais tarde, se descobriu estarem a soldo da Agência Central de Inteligência dos EUA. Agora, Aristide quer retornar a seu país, algo que a maioria dos haitianos reivindica desde a sua derrubada”.

Para complicar ainda mais a vida desse lutador e sofrido povo, a natureza se encarregou de completar a tragédia. O recente terremoto, além de deixar um rastro de destruição da infra-estrutura do país, centenas de milhares de mortos, feridos e desaparecidos sob escombros, e aproximadamente 3 milhões de desabrigados com fome, sede e desesperança para a maioria da população, está servindo também de mote para que o império do norte retome com mais força a sua intervenção para a ocupação política e militar do Haiti. Apega-se o imperialismo à ponta desse iciberg para um impulso à retomada da intervenção na América Latina, que teve o seu recomeço mais recentemente com a organização e sustentação política do golpe militar de Honduras.

A Fundação do Comitê Popular Baiano de solidariedade para ajuda humanitária ao povo haitiano, no dia 19/01/2010, por iniciativa da CTB, Cebrapaz e demais entidades do movimento popular da Bahia, é uma atitude internacionalista de grande significado neste momento difícil por que passa o oprimido povo haitiano.
Deposite a sua contribuição na Conta do Consulado do Haiti, em São Paulo: Banco do Brasil - Ag: 1603-3 – C.Corrente: 91000-7.

(1) Mark Weisbrot é doutor em economia pela Universidade de Michigan, é codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington (http://www.cepr.net/).
Tradução de Clara Allain

* Antonio Barreto é Membro da Direção Nacional do Cebrapaz e Presidente da Associação Cultural José Martí – Bahia.
Reflexões de Fidel

A lição do Haiti

• HÁ dois dias, quase às 18h, hora de Cuba, já de noite no Haiti devido a sua posição geográfica, as televisoras começaram a divulgar notícias de que um violento terremoto, de uma intensidade 7,3 na escala de Ritcher, tinha devastado Porto Príncipe. O fenômeno sísmico originou-se numa falha tectônica situada no mar, localizada apenas a 15 quilômetros da capital haitiana, uma cidade onde 80% da população haitiana mora em casas frágeis construídas de adobe e barro.

As notícias continuaram sendo difundidas quase ininterruptamente durante horas. Não havia imagens, mas afirmava-se que muitos prédios públicos, hospitais, escolas e instalações de construção mais sólida tinham colapsado. Eu li que um terremoto de uma intensidade 7,3 equivale à energia liberada por uma explosão igual a 400 mil toneladas de TNT.

Descrições trágicas eram veiculadas. Os feridos nas ruas pediam aos gritos ajuda médica, rodeados de ruínas com famílias sepultadas. No entanto, ninguém conseguiu transmitir nenhuma imagem durante muitas horas.

A notícia surpreendeu todos nós. Muitos escutávamos com freqüência informações sobre furacões e grandes cheias no Haiti, mas ignorávamos que o vizinho país corria o risco de sofrer um grande terremoto. Nesta ocasião, veio à baila que, há 200 anos, essa mesma cidade tinha sofrido um grande terremoto, quando talvez a cidade tinha alguns poucos milhares de habitantes.

Às 24h ainda não se conhecia uma cifra aproximada de vítimas. Altos chefes das Nações Unidas e vários chefes de governo falavam sobre os comoventes acontecimentos e anunciavam o envio de brigadas de primeiros-socorros. Como ali estão desdobradas tropas da MINUSTAH, forças das Nações Unidas de diversos países, alguns ministros de defesa falavam de possíveis baixas entre o seu pessoal.

Foi verdadeiramente na manhã de ontem, quarta-feira, quando começaram a chegar as tristes notícias sobre as consideráveis perdas humanas na população e, inclusive, instituições como as Nações Unidas mencionavam que algumas de suas edificações naquele país tinham colapsado, um termo que não diz nada de per si ou que poderia significar muito.

Durante horas continuaram chegando ininterruptamente notícias cada vez mais traumáticas sobre a situação nesse país irmão. Eram discutidas as cifras das vítimas mortais que flutuam, segundo versões, entre 30 mil e 100 mil. As imagens são assustadoras; é evidente que o desastroso acontecimento teve ampla difusão mundial, e muitos governos, sinceramente comovidos, fazem esforços para cooperar conforme os seus recursos.

A tragédia abala sinceramente grande número de pessoas, especialmente as de índole natural. Mas, talvez, poucas se detêm em pensar por que o Haiti é um país tão pobre. Por que a sua população depende quase 50% das remessas familiares que são recebidas do exterior? Por que não se analisa também as realidades que conduzem à situação atual do Haiti e seus enormes sofrimentos?

O mais curioso desta história é que ninguém diz uma só palavra para lembrar que o Haiti foi o primeiro país onde 400 mil africanos escravizados e vítimas do tráfico dos europeus se revoltaram contra 30 mil donos brancos de plantações canavieiras e de café, fazendo a primeira grande revolução social em nosso hemisfério. Páginas de insuperável glória ali foram escritas. O mais eminente general de Napoleão foi derrotado. Haiti é um produto absoluto do colonialismo e do imperialismo, de mais de um século de emprego de seus recursos humanos nos trabalhos mais duros, das intervenções militares e do saque de suas riquezas.

Este esquecimento da história não seria tão grave como o fato real de que o Haiti é uma vergonha de nossa época, num mundo onde prevalece a exploração e o saque da imensa maioria dos habitantes do planeta.

Bilhões de pessoas na América Latina, África e Ásia sofrem carências similares, embora talvez em todas tenham uma proporção tão elevada como a do Haiti.

Situações como a que sofre esse país não deveriam existir em nenhum lugar da Terra, onde abundam dezenas de milhares de cidades e povoados em condições similares e, às vezes, piores, em virtude de uma ordem econômica e política internacional injusta imposta ao mundo. A população mundial não está ameaçada apenas por catástrofes naturais como a do Haiti, que é apenas uma prova fraca do que pode acontecer no planeta devido à mudança climática, que foi, na verdade, alvo de escárnio e engano em Copenhague.

É justo exprimir a todos os países e instituições que perderam alguns cidadãos ou membros por motivo da catástrofe natural no Haiti: não duvidamos que neste momento envidarão todos os esforços para salvarem vidas humanas e mitigarem a dor desse povo sofrido. Não podemos culpá-los do fenômeno natural que ali aconteceu, embora discordemos da política aplicada no Haiti.

Não posso deixar de exprimir a opinião de que é hora de encontrar soluções reais e verdadeiras para esse povo irmão.

No setor da saúde e noutros, Cuba, apesar de ser um país pobre e bloqueado, há anos vem cooperando com o povo haitiano. Ao redor de 400 médicos e especialistas da saúde cooperam gratuitamente com o povo haitiano. Os nossos médicos trabalham diariamente nas 227 das 237 comunidades do país. Por outro lado, não menos de 400 jovens haitianos formaram-se como médicos em nossa Pátria. Agora trabalharão com a brigada que foi ali ontem para salvar vidas nesta situação crítica. Portanto, podem se mobilizar sem muito esforço, até mil médicos e especialistas da saúde, que já estão ali quase todos dispostos a cooperarem com outro Estado qualquer que desejar salvar vidas haitianas e curar os feridos.

Outro número considerável de jovens haitianos estuda medicina em Cuba.

Também cooperamos com o povo haitiano em outras áreas que estão ao nosso alcance. No entanto, não haverá nenhuma outra forma de cooperação digna de ser qualificada dessa forma que a de lutar na esfera das ideias e da ação política para pôr fim à imensa tragédia que sofre um grande número de nações como o Haiti.

A chefa da nossa brigada médica informou: "A situação é difícil, mas já começamos a salvar vidas". Ela fê-lo ontem, através de uma breve mensagem umas horas depois de chegar ontem a Porto Príncipe com mais reforço médico.

Já na alta noite, comunicou que os médicos cubanos e os haitianos formados na ELAM estavam se espalhando pelo país. Tinham atendido em Porto Príncipe a mais de mil pacientes, conseguindo pôr urgentemente em funcionamento um hospital que não colapsou e empregando barracas onde for necessário. Preparavam-se para instalar rapidamente outros locais de pronto-socorro.

Sentimos sadio orgulho pela cooperação que, neste trágico momento, prestada pelos médicos cubanos e jovens médicos haitianos formados em Cuba aos seus irmãos do Haiti!

Fidel Castro Ruz

14 de janeiro de 2010

20h25
Reflexões de Fidel

O Haiti coloca à prova o espírito de cooperação


• As notícias procedentes do Haiti configuram o grande caos que se esperava, devido à situação excepcional criada pela catástrofe.

Surpresa, espanto, abatimento nos primeiros instantes, vontade de prestar ajuda imediata nos cantos mais afastados da Terra. O quê enviar e como fazê-lo para um canto do Caribe, a partir da China, Índia, Vietnã e de outros pontos localizados a dezenas de milhares de quilômetros? A magnitude do terremoto e da pobreza do país gera nos primeiros momentos ideias de necessidades imaginárias, que dão azo a todo o tipo de promessas possíveis que depois tentam fazer chegar por qualquer via.

Os cubanos compreendemos que o mais importante nesse momento era salvar vidas, para o qual estávamos treinados, não apenas diante de catástrofes como essa, mas também de outras catástrofes naturais relacionadas com a saúde.

Ali estavam centenas de médicos cubanos e, além disso, um número considerável de jovens haitianos de origem humilde, convertido em profissionais da saúde bem treinados, uma tarefa npara a qual contribuímos durante muitos anos com esse país irmão e vizinho. Uma parte dos nossos compatriotas estava de férias e outros, de origem haitiana, treinavam-se ou estudavam em Cuba.

O terremoto ultrapassou qualquer estimativa; as casas humildes de adobe e barro — de uma cidade com quase dois milhões de habitantes — não podiam resistir. Instalações governamentais sólidas desabaram; quarteirões completos de moradias se desmoronaram sobre os habitantes que, nessa hora, ao anoitecer, estavam em seus lares, ficando sepultados abaixo das ruínas, vivos ou mortos. As ruas estavam repletas de pessoas feridas que clamavam auxílio. A MINUSTAH, força das Nações Unidas, o governo e a Polícia ficaram sem chefatura nem posto de comando. No primeiro momento, a tarefa dessas instituições com milhares de pessoas foi saber quem estava com vida e onde.

A decisão imediata dos nossos abnegados médicos que trabalhavam no Haiti, bem como dos jovens especialistas da saúde formados em Cuba, foi comunicarem-se entre si, conhecerem de sua sorte e saberem com que pessoal se contava para socorrer o povo haitiano naquela tragédia.

Os que estavam de férias em Cuba aprontaram-se logo para partir, assim como os médicos haitianos que se especializavam em nossa Pátria. Outros especialistas cubanos em cirurgia que já cumpriram missões difíceis se ofereceram para partir com eles. Basta dizer que, antes de 24 horas, os nossos médicos já tinham atendido a centenas de pacientes. Hoje, 16 de janeiro, apenas três dias e meio depois da tragédia, o número de pessoas com lesões já auxiliadas por eles elevava-se a vários milhares.

Ao meio-dia de hoje, sábado, a chefia de nossa brigada informou, entre outros dados, os seguintes:

"… na verdade, é louvável o trabalho que estão fazendo os companheiros. É uma opinião unânime que, comparativamente, o Paquistão ficou bem atrás ―ali houve outro grande terremoto onde alguns trabalharam―; naquele país muitas vezes recebiam fraturas, inclusive, mal consolidadas, alguns esmagamentos, mas aqui foi ultrapassado tudo o imaginável: amputações abundantes, as operações praticamente é preciso fazê-las em público; é a imagem que tinham de uma guerra."

"… o hospital Delmas 33 já está funcionando; tem três salas de operações cirúrgicas, com geradores elétricos, áreas de consulta etc., porém está absolutamente repleto."

"… Incorporaram-se 12 médicos chilenos, um deles anestesiologista; também oito médicos venezuelanos; nove freiras espanholas; espera-se a incorporação, de um momento para o outro, de 18 espanhóis, aos quais a ONU e a Saúde Pública haitiana tinham entregado o hospital, mas faltavam-lhes recursos de urgência que não tinham podido chegar, portanto, decidiram se juntar a nós e começar a trabalhar logo."

"… foram enviados 32 médicos residentes haitianos, seis deles iam diretamente para Carrefour, um local completamente devastado. Também foram os três times cirúrgicos cubanos que chegaram ontem."

"… estamos operando as seguintes instalações médicas em Porto Príncipe:

Hospital La Renaissance.

Hospital da Previdência Social.

Hospital da Paz."

"… já funcionam quatro CDIs (Centros de Diagnóstico Integral)."

Nesta informação, apenas é transmitida uma ideia do que está fazendo no Haiti o pessoal médico cubano e de outros países que trabalha junto com eles, entre os primeiros que chegaram a essa nação. Nosso pessoal está disposto a cooperar e juntar suas forças com todos os especialistas da saúde que foram enviados para salvar vidas nesse povo irmão. O Haiti poderia se tornar um exemplo do que a humanidade pode fazer por si própria. A possibilidade e os meios existem, mas falta decisão.

Quanto mais tempo demorar o enterramento ou a incineração dos falecidos, a distribuição de alimentos e de outros produtos vitais, os riscos de epidemias e violências sociais se elevarão.

No Haiti se colocará à prova quanto pode durar o espírito de cooperação, antes que prevaleçam o egoísmo, o chauvinismo, os interesses mesquinhos e o desprezo por outras nações.

A mudança climática ameaça toda a humanidade. O terremoto de Porto Príncipe, apenas três semanas depois, está fazendo com que todos nós lembremos quão egoístas e autossuficientes nos comportamos em Copenhague.

Os países acompanham de perto todo o que acontece no Haiti. A opinião mundial e os povos serão cada vez mais severos e implacáveis em suas críticas.

Fidel Castro Ruz

16 de janeiro de 2010

19h46 •

Os pecados do Haiti
por Eduardo Galeano

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca idéia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estado-unidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:
– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto à Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetros quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até a alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a idéia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até a cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolíver, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma idéia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

18/Janeiro/2010

O original encontra-se em www.resumenlatinoamericano.org , Nº 2146
Este artigo encontra-se em http://resistir.info